Volta a Portugal em doces de Natal
O que vai estar na sua mesa de Natal?
Natal é o aroma inconfundível da canela doce a perfumar a casa, são as rabanadas comidas ainda a queimar os dedos, é a azáfama que contagia toda a gente. São as toalhas bordadas e a mesa bem-posta, a expectativa de quem espera e a de quem sabe que vai chegar. São os abraços, os reencontros, a casa cheia, mas também os lugares vazios daqueles que nos faltam.
A mesa de Natal simboliza mais do que uma celebração especial: é uma união de memórias, tradições e sabores que atravessam gerações. Entre as várias iguarias que fazem parte das mesas desta época festiva, os doces cuidadosamente preparados guardam histórias das famílias, dos lugares e até dos seus ingredientes.
Nesta Volta a Portugal em Doces de Natal celebramos o que torna cada lugar especial – uma forma doce de explorar o país e, quem sabe, inspirar a busca pela casa onde vai querer fritar os seus sonhos!
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Mesas fartas, mesas pobres, mesas partilhadas, mesas onde se dá e recebe. Muitas das receitas vêm de tempos difíceis, reinventam sobras, fazem do pouco muito, usam ingredientes acessíveis e aquilo que a terra oferece.
Açúcar, canela, água, farinha, pão e ovos: com mais ou menos toques de magia (entenda-se, amêndoa, gila, leite…) estes são os protagonistas de muita da doçaria tradicional que tem inúmeras variantes regionais, além daquele toque pessoal que cada par de mãos gosta de trazer a uma receita.
Assim, no norte do país, onde o clima frio pede aconchego, as rabanadas são enriquecidas com vinho do Porto, aquecendo as noites festivas. No Alentejo, a generosidade da terra reflete-se nas azevias de batata-doce e grão-de-bico. Nas ilhas, as broas e bolos de mel celebram tradições únicas moldada pelo mar e pela terra.
As melhores heranças, passadas entre gerações, são aqueles segredos guardados nos cadernos antigos e recriados com carinho em cada Natal. Mas mesmo que já tenha desistido de todo este rodopio gastronómico e prefira comprar tudo na pastelaria do bairro ou tenha trocado as toneladas de açúcar por alternativas mais saudáveis, os doces de Natal continuam a ser a alma da festa.
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Na mesa de Natal nortenha, há clássicos que conquistaram já todo o território nacional. As irresistíveis rabanadas (ou fatias douradas) nas suas múltiplas declinações, de leite ou vinho, polvilhadas, com calda, com ovos moles ou mel.
O desfile de iguarias continua com os mexidos ou formigos, doce de colher que aproveita sobras de pão e as enriquece com frutos secos e vinho do Porto; os bolinhos de jerimu, de abóbora, a sopa dourada, feita a partir de pão-de-ló demolhado em calda de açúcar e coberto de ovos moles.
Não parece haver limites nem criativos nem glicémicos na doçaria nacional.
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A zona centro do país guarda as origens da santíssima trindade do pecado da gula: os ovos moles. Bastam gemas, água e açúcar para fazer esta receita capaz de converter o mais cético dos mortais aos milagres da glutonia.
Também o Pão-de-Ló, de Ovar ou de Alfeizerão, é presença assídua nas consoadas, emparelhado com os bilharacos, fritos de abóbora que disfarçam na feiura o melhor dos sabores. Mas também não pode faltar a travessa de aletria doce, a curiosa lampreia de ovos e as filhoses beirãs que, com o seu toque de aguardente, eram tradicionalmente tendidas no joelho das cozinheiras junto à lareira. A filhós, que tem a massa preparada com farinha de trigo, ovos, leite, fermento e azeite, varia em forma e feitio nas diversas regiões do país.
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O clássico em forma de coroa foi o que de melhor restou das invasões francesas: o bolo-rei terá origem no Gâteau des Rois e tornou-se popular no nosso país durante o século XIX.
O primeiro estabelecimento a vendê-lo foi a Confeitaria Nacional, em Lisboa, mas rapidamente se propagou sendo agora um dos mais adorados filhos da nação. Recheado de frutos secos e cristalizados, cada fatia deve ser à francesa, que é como quem diz, grande! Atualmente, já existem variedades como o bolo-rainha, o escangalhado, o de chocolate e o de chila.
Também as broas castelares nasceram na capital. Terão sido criadas pelos irmãos Castelar, proprietários da Confeitaria Francesa, situada na Rua do Ouro, na Baixa da cidade. São pequenas e discretas, mas guardam um paladar surpreendente. A mistura da batata-doce e da amêndoa aromatizada com laranja não desilude e o tamanho reduzido faz-nos acreditar que também é pequeno o tamanho da nossa gula.
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Quem nunca se deliciou com uma azevia ao pequeno-almoço desconhece ainda os prazeres da vida. Não será para estômagos fracos, mas para espíritos fortíssimos que fazem do amor à doçaria de Natal uma tarefa sem horas de descanso. Este doce frito tradicional do Alentejo guarda na sua barriguinha de meia-lua recheios de grão, gila ou batata-doce, complementados por amêndoa.
Tal como as azevias, também os coscorões há muito que galgaram as fronteiras das suas origens alentejanas, conquistando mesas de lés-a-lés, no Natal e não só. A massa de farinha e ovos, estendida numa tira larga e estaladiça, pode ser polvilhada com açúcar e canela ou mergulhada numa calda de mel. É uma daquelas escolhas impossíveis…
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A sul, terra de amendoeiras e figueiras, sente-se a influência árabe na arquitetura e também nos paladares. Aqui, a massa de amêndoa e açúcar transforma-se em pequenos frutos, objetos e animais elevando a maçapão a uma categoria artística. Não são específicos do Natal, mas os Doces Finos embelezam qualquer mesa e encantam o palato.
O Morgado de Figo também merece lugar cativo nas mesas algarvias, casando figos e amêndoas numa pequena delícia exótica. Brilham também as Filhós de Canudo, surpreendentemente enroladinhas e cobertas de mel, as azevias de batata-doce e o folar de Olhão, nas suas camadas de sabor.
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Nenhuma parte da gula nacional ficou perdida na travessia atlântica para os Açores e Madeira. Também nos arquipélagos o Natal é uma celebração de sabores ricos e tradições profundamente enraizadas e ajustadas às especificidades de cada ilha e ao carinho das famílias que as preservam.
Nos Açores, o protagonista é o majestoso Bolo de Natal, também conhecido como Bolo de Fruta, preparado com duas semanas de antecedência e guardado em papel vegetal, num lugar quente, para intensificar os seus sabores. Os coscorões estaladiços e as filhós de forno, macias e aromáticas, completam esta doçaria natalícia tão característica.
Na Madeira, é o aromático Bolo de Mel que assume o lugar de destaque. Rico em frutos secos, mel de cana e especiarias, é uma verdadeira celebração de sabores intensos e duradouros. Diz a tradição que quanto mais velho, melhor o sabor. As broas de mel e de especiarias, pequenas delícias perfumadas com canela e erva-doce, são a companhia ideal para acompanhar um cálice de vinho Madeira e brindar a mais um Natal.
Terminada esta Volta a Portugal em Doces de Natal, périplo impróprio para diabéticos ou para quem goste de cumprir dietas rigorosas, devem erguer-se agora as vozes revoltadas que enumeram esquecimentos. “Então e os sonhos? Como é possível não estar o tronco de Natal? Falta o bolo inglês? Deixaram de fora o arroz-doce? E os 7.685 doces conventuais regionais em que Portugal lidera destacado qualquer ranking de hiperglicémicos?
Uns por povoarem todas as mesas, de norte a sul, outros por não serem específicos desta época, (mas bem-vindos todo o ano), ficaram fora deste texto, mas nunca postos de parte no coração da nossa afincada gulodice.
Seja qual for a região do país, as tradições mais doces são sempre aquelas que unem as famílias à volta de uma mesa. Feliz Natal!
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