Sardinhas, manjericos e corações partidos
Descubra o que os Santos Populares dizem sobre si!
Junho começa e o país entra oficialmente em modo “festas populares”. As ruas enchem-se de balões e grinaldas coloridas, os grelhadores conquistam ruas e esquinas, o cheiro a manjerico mistura-se com a música pimba a ecoar.
Os Santos Populares são como o tiro de saída para uma época festiva que se estende até ao final do verão e que transfigura o modo de ser mais contido dos portugueses em alegria genuína. Troca-se o fado e a nostalgia por bailaricos e euforia. Santos, marchas, romarias, festas municipais, festas de aldeia, desfiles e comezainas. Geografias diferentes, tradições variadas, tudo igual na vontade de conviver e bem-viver.
No meio deste caos festivo, há quem encontre amores de verão, quem perca um salto na calçada e quem volte para casa com um manjerico meio murcho e um indelével aroma a sardinha impregnado na roupa e no cabelo.
Mas já pensou no que as festas populares podem revelar sobre a sua personalidade? Este guia não pretende ser científico, nem sequer definitivo, mas, fruto da época estival, talvez seja surpreendentemente certeiro. undefined
A escolha gastronómica nas festas populares é quase uma declaração de intenções. Na senda das grandes clivagens que dividem o mundo, impõe-se a questão capaz de separar famílias, arrasar amizades, dividir corações: carne ou peixe?
Quem enfrenta, de ano para ano, com paciência e estoicismo, a fila da sardinha, provavelmente valoriza as tradições, aprecia os rituais e não se assusta com espinhas. Mesmo com o escândalo dos preços, a anorexia iminente das bichinhas e as quotas de pesca da UE, no pão ou no prato, a sardinha é a rainha das festas populares.
Já quem opta por bifanas ou pão com chouriço, normalmente privilegia o lado prático da vida, a rapidez e não está para grandes cerimónias. Sejamos honestos, uma febra no pão resolve com honradez o buraco no estômago e exige menos mestria ao dono da grelha. Em enchentes festivas, arranjar mesa para jantar pode ser tão difícil como encontrar um T2 a preços razoáveis, pelo que as belas bifanas garantem uma refeição sem espinhas!
Ambos os caminhos são válidos. Mas revelam abordagens diferentes à vida... e à comida.
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Quantos amores nasceram nos Santos Populares? As estatísticas não se têm debruçado o suficiente sobre o tema, mas possivelmente quase tantos quanto os que sucumbiram no mesmo período. Álcool a rodos e noites quentes não costumam dar bons conselhos (embora, com Santo António pelo meio, nunca se saiba).
Símbolo frágil desses amores a despontar, são os manjericos. Há quem espere o ano inteiro para os receber e ler a quadra rimada no papel. Há quem os compre com devoção e os leve para casa como se fossem relíquias. Também há aqueles que acreditam que só um manjerico oferecido tem hipótese de vingar. Outros vasos ficam esquecidos em cima de um muro qualquer antes do fim da noite.
Se está no primeiro grupo, há uma grande probabilidade de ainda acreditar no poder simbólico das pequenas coisas.
Se está no segundo, mas mesmo assim os manjericos teimam em mirrar ao fim de um mês, possivelmente a culpa está no excesso de água.
Se é daqueles que não sabe o que aconteceu ao vaso, talvez leve os Santos com mais leveza e com menos esperança em promessas florais, o que, sejamos honestos, parece uma opção acertada para os dias de hoje.
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Pouco se fala sobre esta dupla identidade nacional que se revela nas festas populares. É uma dualidade musical do tipo Dr. Jekyll e Mr. Hide que cala fundo nos mais insuspeitos cidadãos. Um ano inteiro a ouvir a Antena 2 e é vê-los rodopiar ao som dos primeiros acordes d’ ”A Bela Portuguesa”. Conhecem toda a discografia dos Led Zeppelin, contudo é inevitável baterem o pezinho com o “Baile de Verão”. Sabem as coreografias complexas do TikTok, mas não dispensam o despretensioso comboio do arraial.
É quase inevitável: em junho, até os ouvidos mais exigentes se rendem ao encanto das marchas, da música popular e até do cantor desafinado com o seu sintetizador solitário entoando covers difíceis de identificar.
Se dá por si a cantarolar um mês inteiro de “Cheira bem, cheira a Lisboa” ou “Toda a noite, toda a noite!”, não está sozinho. Nas festas, há uma suspensão momentânea do gosto musical habitual. E ainda bem. É ótimo para baralhar os algoritmos e trazer alguma leveza aos nossos dias.
Se, por outro lado, é um melómano purista que vive as festas populares em busca de arraiais alternativos ou passa os meses de verão com os phones nos ouvidos, é possível que um teste genético revele que na verdade é oriundo de Marte, pela parte da mãe, e descendente de um glaciar, por parte do pai.
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Quem já viveu os Santos Populares (ou outra festa popular) de forma intensa conhece o dia seguinte: ligeira ressaca para quem abusa da sangria, sapatos mais peganhentos do que qualquer supercola patenteada, cheiro a grelhados nos cabelos por três dias, além da sensação de ter dançado com metade da cidade.
Faz parte do encanto. E da sobrevivência. Serão os meses de verão o balão de oxigénio para o resto do ano? É possível que ajudem bastante. Porque não é só de sardinhas, manjericos e corações partidos que se fazem as festas populares. É tempo descontração e riso fácil. De conhecer melhor o nosso vizinho, abraçar os amigos, lambuzar os dedos, menear a anca. De norte a sul, gostemos mais ou menos de multidões, todos acabamos por fazer parte desta festa coletiva e é isso que nos torna tão especiais.
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