Mais de um quarto da população em risco de pobreza em sobrecarga com custos da casa
Famílias mais vulneráveis continuam a suportar os maiores esforços financeiros com habitação.
Mais de um quarto da população portuguesa em risco de pobreza (25,9%) vivia, em 2024, em sobrecarga com despesas em habitação, ou seja, com encargos habitacionais que consumiam mais de 40% do rendimento disponível do agregado familiar. A conclusão é do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (ICOR) relativo ao ano passado, divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), que revela uma realidade preocupante: as famílias mais vulneráveis continuam a suportar os maiores esforços financeiros com a habitação, apesar de algumas melhorias físicas nos alojamentos.
Em termos globais, a taxa de sobrecarga com despesas de habitação em Portugal subiu para 6,9% em 2024, um agravamento face aos 4,9% registados no ano anterior. Este aumento refletiu-se também na carga mediana das despesas com a casa, que passou de 9,7% para 12%.
Mas o peso é desigual. Para a população em risco de pobreza, essa carga subiu para 22,5%, mais do dobro do verificado entre quem não está em situação de pobreza (10,4%). Já nas crianças e jovens até aos 17 anos, quase 10% vivem em agregados familiares em situação de sobrecarga habitacional.
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O inquérito mostra também que os agregados familiares com crianças dependentes vivem, em média, em piores condições habitacionais, quer físicas, quer financeiras. As taxas de sobrelotação (18,8%) e de privação severa (8,2%) nestas famílias são mais do dobro do que nas famílias sem crianças (8% e 2%, respetivamente).
Além disso, os mais jovens continuam a ser particularmente afetados pela falta de espaço: 19,9% das crianças e adolescentes viviam em 2024 em casas sobrelotadas. Esta condição é mais comum nas áreas urbanas (12,8%) e nas Regiões Autónomas, com destaque para a Madeira (19,4%) e os Açores (16,2%).
Em termos físicos, as condições habitacionais melhoraram ligeiramente. A taxa de sobrelotação desceu para 11,2%, enquanto a privação severa das condições de habitação caiu para 4,9%. Esta privação inclui situações como humidade ou infiltrações, falta de luz natural e ausência de instalações sanitárias completas.
Apesar disso, cerca de 34% da população ainda vive em casas com problemas estruturais, e 15,7% não têm capacidade financeira para aquecer adequadamente a casa no inverno. Este número é ainda mais preocupante entre os idosos (22%) e a população em risco de pobreza (30,9%). No verão, quase um terço dos residentes (29,9%) não consegue manter a casa confortavelmente fresca.
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O estudo do INE revela grandes assimetrias regionais. As regiões do Centro e do Oeste e Vale do Tejo apresentam os melhores indicadores de habitação, com as mais baixas taxas de sobrelotação e privação severa. Em contrapartida, os Açores e a Madeira continuam a registar as piores condições físicas.
No que toca à carga das despesas em habitação, as regiões da Grande Lisboa (13,4%) e do Algarve (12,8%) são as únicas que superam a média nacional. A taxa de sobrecarga é também mais elevada nestas regiões, com destaque para a Grande Lisboa (10,5%).
Apesar dos desafios, os dados mostram que 94% dos portugueses estão satisfeitos com o seu alojamento. Em 2024, mais de metade (55,7%) afirmou estar satisfeito e 38,3% muito satisfeito com a casa onde vive. A insatisfação era mais elevada entre os idosos (6,9%), os residentes em zonas urbanas (6,8%) e a população em risco de pobreza (9,2%).
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